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A Psicologia do Amor

75a Conferência do Conselho Internacional de Psicólogos Nova York 2017

Edivani e eu participamos da 75ª Conferência Anual do Conselho Internacional de Psicólogos em Nova York, EUA. Neste encontro tive a oportunidade de apresentar meus estudos sobre a Psicologia do Amor Solidário e a Philianálise. 

O tema da conferência foi: A contribuição da Psicologia para as pessoas, o planeta e a paz mundial. 

Meus estudos sobre a Psicologia do Amor se baseiam na Logoterapia de Viktor Frankl e outros autores, bem como em minha experiência clínica. Em 2008, tive a oportunidade de apresentar o trabalho "Uma desconstrução da Psicologia" no XXIX Congresso Internacional de Psicologia em Berlim. 

A Psicologia é uma ciência que está ao serviço da humanidade, como toda ciência ela está em constante desenvolvimento, minha pesquisa propõe um olhar mais abrangente sobre a capacidade que o ser humano tem para amar e como esta capacidade pode auxiliar o ser humano a superar seus problemas psíquicos e sociais.

 

PHILIANALISE OU PSICOTERAPIA DO AMOR

 

Seria possível uma psicoterapia do amor ou uma análise da capacidade de amar?

As abordagens psicoterapêuticas e analíticas estão constituídas sobre uma determinada visão da pessoa humana, seja pela repressão sexual apontada por Freud em seus escritos, seja pela discussão teórica que Frankl estabeleceu com a Psicanálise de Freud, seja pelas especulações filosóficas dos teóricos da fenomenologia, seja pelas conclusões geradas de diferentes experiências clínicas, seja pelos experimentos laboratoriais ou pelas pesquisas estatísticas. Todas estas formas de conhecimento passaram pelo crivo da visão de pessoa que cada teórico possuía no momento que desenvolveu sua obra. 

 

Assim também vale para os teóricos que escreveram sobre o ser humano séculos atrás e cujas obras foram transformadas pelas religiões em verdades eternas. A psicologia é uma ciência e como ciência cuida do conhecimento científico que diferente do religioso é um conhecimento refutável, ou seja, toda teoria pode ser provada estar errada à medida que o conhecimento se desenvolve. Transformar a psicanálise de Freud em uma verdade absoluta seria então, transformá-la em uma religião, ou da mesma forma, transformar a Logoterapia de Frankl em uma verdade absoluta seria transformá-la em uma religião, o que obviamente não é e nem era o desejo de nenhum destes autores. 

 

O ser humano está em constante desenvolvimento, bem como os conhecimentos que desenvolvemos a seu respeito. É fato que cada teórico devotou anos de estudos para desenvolverem suas teorias, elas foram também construídas sobre experiências clínicas profundamente estudadas e revisadas ao longo dos anos, portanto o que se construiu permanece sendo para nós cientistas da mente e do comportamento humano um aparato de alto valor, necessário para continuarmos retomando e buscando avanços à medida que a realidade da vida humana também se transforma. Considerando a importância de utilizarmos as ferramentas das abordagens existentes que se aplicam a vários tipos de psicopatologias, neuroses e crises existenciais, que seguem ajudando homens e mulheres de todas as idades, a psicologia do amor antes que uma teoria psicoterapêutica propõe uma ampliação da visão de pessoa.

 

Viktor Frankl nos ajudou a reconhecer a existência de um núcleo essencial na pessoa humana que é sua dimensão espiritual. Na psicologia do amor esse núcleo tem uma característica essencial que é regida pelo sentido do amor e está diretamente ligada a todos os aspectos da pessoa humana bio-psico-espiritual. O amor, entendido como constituinte do ser representado pelo conceito de philia, é uma força motora das inter-relações humanas, do desenvolvimento psíquico e da forma com que a pessoa se apresenta ao mundo e manifesta sua identidade. No que diz respeito à forma com que podemos relacionar esta teoria com uma aplicação prática terapêutica penso que mais que propor uma abordagem psicoterapêutica ou analítica, a psicologia do amor propõe uma análise essencial. 

 

A análise existencial, como o próprio nome diz, tem seu pressuposto na existência humana, o que já é uma análise mais complexa que a análise apenas do psiquismo humano em sua psicodinâmica. A análise essencial parte do fundamento que a essência da vida humana não pressupõe a existência, mas revela o seu cerne mais valioso, há um núcleo humano que é noológico. Assim como a célula tem um núcleo e o núcleo é o primeiro a surgir e carrega todas as características existenciais da célula, assim também o ser humano tem um núcleo do qual sua principal característica é a capacidade de amor philia. Não se trata aqui de uma concepção religiosa, mas de uma concepção ontológica. 

 

Antes que se conceba uma pessoa ela pode ser desejada por seus pais; estando em outro país e sem se comunicar ela pode despertar diferentes emoções nas pessoas que a conhecem; tendo falecido há muitos anos ela pode continuar influenciando na vida das pessoas que a conheceram e através de suas obras pode influenciar as pessoas que não a conheceram. Tendo sua essência se manifestando em sua existência de forma contundente, sua existência traz sentido para as pessoas ao seu redor e exerce uma força motivadora na sociedade em que se manifesta.

Um trabalho de análise ou de psicoterapia tem como pressuposto a visão do analista ou terapeuta, de modo que, embora não seja ele o agente da cura, os fundamentos de sua visão de pessoa influenciam no processo terapêutico e analítico. 

 

No início do século passado Freud utilizou a metáfora de Leonardo da Vinci sobre a forma com que trabalhava a escultura per via di levare, como uma referência à forma com que a psicanálise trabalhava com seus pacientes, ou seja, a metáfora se refere a obra do escultor que diante de uma pedra bruta retira artisticamente o que está sobrando para que a escultura que está escondida venha para fora. No que diz respeito à psicanálise, a ideia é retirar também os conteúdos que impedem a vida de se mostrar. Esta metáfora é brilhante e nos permite também reafirmar que a visão do analista ou terapeuta é determinante, pois se por algum equívoco teórico ele tenda a desenvolver uma visão de pessoa mecanicista, a dizer, na qual o ser humano é um "nada mais que", prisioneiro de seus condicionamentos, a terapia ou análise poderá ser direcionada com este objetivo, buscando uma harmonia homeostática para lidar com tais limitações sem de fato curá-lo ou auxiliá-lo em um processo de superação, além de que provavelmente nunca terá fim. 

 

Se, por outro lado, a visão do terapeuta ou analista é a de que a pessoa escondida nesta obra é um ser humano livre apesar de seus condicionamentos, de que, como afirma Frankl, por trás de todo enfermo há uma pessoa verdadeiramente sã, de que esta pessoa não é apenas formada pelo bio-psíquico, mas também por uma dimensão espiritual, cuja característica não é individualista, mas sim comunitária, de que a pessoa escondida nesta obra tem uma tendência natural a realizar-se através da vivência do amor e que possui em si a capacidade de amar, o processo terapêutico tenderá a ser muito mais eficaz e com resultados verdadeiramente curativos e transformadores. 

A psicologia do amor propõe uma visão de pessoa que considera a visão freudiana e fundamenta-se na visão de Viktor Frankl no que diz respeito à Ontologia dimensional e a busca pelo sentido da vida. Compreendendo a busca do ser humano pelo prazer, o poder e principalmente pelo sentido da vida, a Psicologia do amor não nega tais características, porém afirma uma busca ainda maior, a busca pelo amor, no sentido de necessidade essencial por receber amor, porém com um sentido existencial mais determinante para sua realização como ser humano, a necessidade essencial de AMAR. 

 

A busca primordial do ser humano é pelo “amar”, e sendo assim, uma forma de se considerar a análise essencial do ser humano é percebendo-o como um ser que busca o sentido de sua vida na possibilidade de amar, que busca o prazer para sua vida na possibilidade de vivência de um encontro fecundo com o outro que se dá pela vivência do amor, que busca o poder para estar apto a significar e oferecer mais para o outro e, então poder amá-lo. O amor traz de tal forma um registro da identidade de uma pessoa na vida do outro, no momento histórico em que vive e perpetua o sentido de sua própria existência na existência dos outros, oferecendo à pessoa a possibilidade de tornar-se ainda maior, ou seja, tornar-se o que de fato deva ser. 

O termo philianálise parte do pressuposto de que a pessoa humana a ser resgatada per via de levare é uma pessoa cuja constituição é bio-psico-espiritual e cuja busca predominante é pela possibilidade de amar. Philianálise é, portanto, a análise do amor, ou melhor, a análise da capacidade de amar e sua dinâmica representada por uma busca pela possibilidade de amar. Uma vez que a pessoa reencontre em sua vida o caminho pelo qual é capaz de imprimir o sentido de sua existência na vida de outras pessoas, estará apta para superar muitas de suas limitações, acessando assim o que tem de mais forte dentro de si, sua capacidade de amar. 

Ao longo de meu trabalho como psicólogo clínico e terapeuta de casal pude presenciar muitas situações em que meus pacientes encontraram um caminho singular para superação dos problemas que enfrentavam. Pude presenciar a história de várias mulheres que tiveram seus sintomas psicológicos diminuírem significativamente quando, por exemplo, souberam que estavam grávidas. A gravidez, como sabemos, traz consigo muitas mudanças hormonais e no que diz respeito aos aspectos orgânicos, estas mudanças afetam também seu psicológico, mas não o define. É possível, por exemplo, observar casos de mulheres que não aceitando sua gravidez, adoeceram psiquicamente, seja pela negação da realidade, seja também pela negação de viver o que sua consciência lhes movia a viver, ou seja, o amor. 

 

Quando há uma aceitação, como nos casos de minhas pacientes, há uma abertura para a capacidade de amar, desta forma a consciência encontra espaço para manifestar sua essência constituída para amar, algo que não se revela apenas como uma simples aceitação, mas se manifesta como uma vontade de receber uma outra vida humana, uma visão de que aquela gravidez representa algo maior, uma realização singular e carregada de sentido, um presente, que deve ser aceito com repleta gratidão e amor. Sendo assim, torna-se improvável a possibilidade do adoecer-se ante a possibilidade do amar, pois sendo o ser amado necessitado do meu melhor, não poderia oferecer-lhe menos que isso, pois o amo com todas minhas forças.

Em um caso, a paciente havia sido encaminhada por um psiquiatra e carregava consigo um diagnóstico de bipolaridade e síndrome do pânico, estava em tratamento medicamentoso e fazia suas sessões psicoterápicas semanalmente, quando ficou grávida, parou com os medicamentos, as crises de pânico cessaram, os sintomas de bipolaridade desapareceram e ela se mostrou durante aqueles nove meses ser uma pessoa tranquila, cuja ansiedade e obsessividade haviam diminuído drasticamente, um quadro que se manteve mesmo durante vários meses após o nascimento de seu filho, ainda quando ele já não dependia exclusivamente mais da amamentação no peito.

O trabalho da terapia de casal nos possibilita testemunhar inúmeros casos de amor, pois os casais buscam a terapia quando estão enfrentando problemas sérios em sua dinâmica de relacionamento, muitos deles veem a terapia de casal como uma última esperança, ou um último passo antes da separação. Há muitas situações que trazem sofrimento no relacionamento de um casal, incompatibilidades de temperamento, diferenças culturais, diferenças de costumes, de modos de ver a vida, problemas pessoais de fundo biológico ou psicológico, problemas no campo da vida sexual, traições de diferentes tipos e formas, decepções e frustrações. 

 

Se para cada problema existisse um remédio específico o processo terapêutico seria mais fácil, mas não apenas para cada problema há diversas formas de se resolver, para cada pessoa há também diversas formas de se conceber cada problema, mas em sua grande maioria o que se revela como determinante neste processo não são os problemas ou suas raízes e a forma com que são percebidos, mas a capacidade que ele e ela possuem de superar estes problemas e esta capacidade tem sua raiz no amor que um sente pelo outro. Só se submete a um processo profundo e muitas vezes desgastante de busca pela solução dos problemas a pessoa que de alguma forma sabe que ainda existe amor.

A dinâmica dos relacionamentos humanos passa pela constatação de que estamos conectados, queiramos ou não, esta realidade não é subjetiva e nem pode ser relativizada por nossa mente, seja pelos vínculos familiares, pelos interesses em comum, pelas relações amorosas e de amizade, pela nacionalidade, pela religiosidade, pelo fato de fazermos todos parte de uma raça que compartilha um mesmo planeta em um mesmo tempo histórico, em um mesmo espaço no universo. Para a Psicologia do Amor Solidário a teoria de uma guerra justa não faz sentido, pois não há possibilidade de destruir outra vida humana quando se permite viver a capacidade de amar. 

 

O amor faz do ser humano mais inteligente, pois o pressiona a buscar soluções pacíficas que visam o convívio harmonioso, leva a uma autoanálise sincera e honesta que reconhece suas responsabilidades mesmo ante as dificuldades e limitações do outro. Desta forma não importa quem ordena a guerra ou qual seja o motivo da guerra como havia postulado Agostinho de Hipona, mas sim que ambos os lados possuem razões suficientes para se compreenderem e coexistirem, mesmo que ainda não as tenham encontrado. Para isto existe a diplomacia, uma realidade que é fruto de uma evolução humana. Hoje, comete-se menos assassinatos, há menos guerras que outrora, ao passo que nunca houve tantas missões diplomáticas espalhadas ao redor do globo terrestre.  Contudo, mesmo a diplomacia pode ser usada para enganar e oprimir, pois sempre dependerá de que como as pessoas a conduzem.

 

O QUE É O AMOR

 

Por mais que procuremos uma definição melhor sobre o amor, não encontraremos uma explanação mais completa e que mais se aproxime do real significado e sentido do amor do que as palavras de Paulo expressas em sua carta aos Coríntios: 

 

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria! O amor é paciente, o amor é bondoso, não tem inveja. O amor não é orgulhoso, não é arrogante, nem escandaloso, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita”. (I Cor 13, 1-9)