Paralelismo existencial: por que vivemos em mundos que não se encontram
- Élison Santos
- há 1 dia
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Você já teve a sensação de que uma pessoa próxima — um parente, um antigo amigo — passou a viver em outro mundo? Não apenas com opiniões diferentes das suas, mas habitando outra realidade, com outros fatos, outras urgências, outros heróis. Essa experiência, hoje tão comum, é o ponto de partida do conceito que venho desenvolvendo em minha pesquisa: o paralelismo existencial.
O que é o paralelismo existencial
A psicologia social costuma explicar a polarização pelos mecanismos de identidade de grupo: pertencemos a uma tribo e passamos a enxergar a outra com desconfiança. Essa explicação é verdadeira, mas incompleta. O paralelismo existencial propõe que, antes de ser um fenômeno de identidade, a fragmentação contemporânea é um fenômeno de sentido.
A tese central é esta: grupos humanos podem construir universos de sentido inteiros — coerentes por dentro, funcionais para quem os habita — que correm lado a lado sem jamais se cruzar. Não são apenas bolhas de informação; são mundos existenciais paralelos, cada um com seus valores, suas narrativas sobre o sofrimento e suas respostas para a pergunta “para que vale a pena viver?”. Quando duas pessoas desses mundos conversam, elas não discordam apenas sobre dados: discordam sobre o que faz a vida significar alguma coisa.
Por que isso importa para a saúde mental
Viktor Frankl mostrou que o ser humano adoece quando perde o sentido. O paralelismo existencial acrescenta uma camada social a essa intuição clínica: em uma sociedade fragmentada em mundos paralelos, o sentido deixa de ser algo construído em comum e passa a ser algo defendido contra os outros. O resultado é previsível — solidão dentro da própria família, exaustão afetiva, desconfiança crônica e a sensação de que não há mais um nós possível.
No consultório, isso aparece de formas muito concretas: famílias que pararam de se falar, pessoas que perderam amizades de décadas, jovens que organizam a própria identidade em torno de conflitos públicos, profissionais que se sentem estrangeiros na própria equipe. É sofrimento legítimo, ainda que sua origem esteja fora do indivíduo.
Existe saída? A hipótese da democracia generativa
Em trabalho recente, articulo o paralelismo existencial à ideia de democracia generativa: a aposta de que instituições, escolas e organizações podem ser desenhadas para gerar sentido compartilhado, em vez de apenas administrar o conflito entre mundos. Isso não significa apagar diferenças — significa criar experiências em que pessoas de universos distintos constroem algo juntas e, ao construir, descobrem um sentido que nenhuma delas teria sozinha.
Na prática, isso começa pequeno: uma escola que promove projetos entre alunos de origens diferentes; uma empresa que constrói propósito com as equipes, e não para elas; uma família que decide preservar o vínculo em vez de vencer a discussão. A reconstrução do tecido comum é sempre concreta e local antes de ser social.
Uma pergunta para levar
Se você reconheceu alguém nesta descrição — ou reconheceu a si mesmo — talvez a pergunta útil não seja “como convencê-lo?”, mas “o que dá sentido à vida dessa pessoa, e o que dá sentido à minha?”. É uma pergunta mais difícil e mais lenta. Também é, pela minha experiência clínica de 19 anos, a única que costuma abrir portas entre mundos paralelos.
Desenvolvo o paralelismo existencial em pesquisa na USP e na The Catholic University of America (Washington, DC), com publicações sobre polarização política, identidade e resiliência democrática. Levo o tema também a universidades, escolas e organizações em forma de palestra — se sua instituição tem interesse, entre em contato pelo site.
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