Voe Mais Alto, Senhor Presidente! Carta Aberta ao Futuro Presidente do Brasil
Atualizado: há 5 horas
Uma carta aberta ao futuro Presidente da República sobre consciência, dignidade humana e responsabilidade pelo Brasil
O Brasil é maior do que qualquer presidente. Mas será que nós, brasileiros, temos vivido à altura dessa verdade?
Em meio a mais uma eleição presidencial, o Brasil se vê diante de profundas divisões. Famílias se afastam, amizades se desfazem e o diálogo frequentemente dá lugar à hostilidade. A divergência política, que deveria ser uma expressão natural da democracia, transforma-se, muitas vezes, em motivo para desqualificar e desumanizar aqueles que pensam de maneira diferente.
Como psicólogo, preocupa-me não apenas o futuro político e econômico do país, mas também o que estamos fazendo com nossa capacidade de pensar, dialogar e conviver. Quando depositamos nossas esperanças inteiramente em um líder ou passamos a enxergar no adversário a origem de todos os males, corremos o risco de abrir mão daquilo que nos torna cidadãos: nossa liberdade de consciência e nossa responsabilidade diante da realidade.
Foi dessa inquietação que nasceu a carta “Voe mais alto, Senhor Presidente!”.
Ela não foi escrita para defender um candidato, um partido ou uma ideologia. É um convite dirigido àquele que assumirá a Presidência da República, independentemente do resultado das urnas. Um convite para que reconheça a grandeza e a diversidade do Brasil, ultrapasse os limites das disputas partidárias e exerça a liderança com respeito à dignidade de cada brasileiro.
Mas esta carta também se dirige a nós, cidadãos.
Não podemos esperar que um presidente pense por nós, decida por nós ou nos salve de todas as nossas dificuldades. Uma democracia verdadeiramente viva exige mais do que governantes responsáveis: exige cidadãos capazes de exercer sua liberdade, reconhecer seus deveres, questionar suas próprias convicções e participar da construção do bem comum.
Inspirado pela perspectiva existencial de Viktor Frankl, acredito que a liberdade humana não se realiza na ausência de responsabilidades, mas precisamente na maneira como respondemos às circunstâncias que nos são apresentadas.
Talvez o maior desafio do próximo presidente não seja apenas governar um país dividido, mas contribuir para que os brasileiros voltem a se reconhecer como parte de uma mesma comunidade, sem precisar pensar da mesma maneira.
A seguir, compartilho a leitura em vídeo e o texto integral desta carta aberta. Se suas palavras também expressarem suas preocupações e esperanças para o Brasil, convido você a assiná-la e compartilhá-la.
Que esta mensagem seja, acima de tudo, um convite à consciência, ao diálogo e à responsabilidade pelo país que desejamos construir.
Assista à leitura da carta
Leia a carta aberta na íntegra
Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
Vossa Excelência não recebeu um cheque em branco.
Não se deixe levar pelos aplausos de seus seguidores. Lembre-se de que quase metade do país não o escolheu e de que muitos daqueles que votaram no senhor o fizeram com dúvidas, receios e esperanças.
Não lhe escrevo para parabenizá-lo, embora reconheça que, pessoalmente, deve ser uma imensa honra ocupar a Presidência da República, seja pela primeira vez ou pela quarta.
Contudo, esta eleição não é sobre o senhor.
É sobre cada brasileiro e cada brasileira. Cada criança, adolescente, jovem, adulto e idoso que vive em um dos maiores, mais ricos e mais belos países do mundo.
É sobre aqueles que acordam antes do amanhecer para trabalhar, sobre aqueles que procuram trabalho e não encontram, sobre os que estudam e os que ensinam, sobre aqueles que cuidam dos outros e sobre tantos que já não sabem se podem continuar sonhando.
O senhor não recebeu um prêmio. Recebeu uma missão.
Se este é seu quarto mandato, convido-o a transcender.
Voe mais alto! Mais alto do que já conseguiu voar. O senhor recebeu uma nova oportunidade de corrigir erros graves, de superar limitações e de realizar aquilo que ainda não foi capaz de realizar.
Não se iluda: o povo conhece seus erros. E o senhor também.
Esta pode ser sua última corrida. Não a desperdice repetindo aquilo que já fez. Desprenda-se das amarras que tantas vezes o impediram de ser melhor, das conveniências políticas, dos compromissos que não servem ao país e da necessidade de agradar permanentemente aos seus apoiadores.
Ajude o brasileiro a buscar muito mais do que o pão de cada dia. Ajude-o a sonhar mais alto, a descobrir suas capacidades, a encontrar oportunidades, a assumir responsabilidades e a construir sua própria história.
Que a proteção social não seja confundida com dependência pessoal de um governante. Que cada conquista do povo seja reconhecida como um direito, nunca como um favor.
Que seu maior legado não seja a gratidão de milhões de pessoas ao seu nome, mas a possibilidade de que milhões de brasileiros precisem cada vez menos de alguém que lhes prometa a salvação.
Se este é seu primeiro mandato, lembre-se de que o senhor não é seu pai.
O senhor não precisa repetir sua história, suas palavras ou seus erros. Tem diante de si a oportunidade de construir um caminho próprio, de reconhecer aquilo que não deve ser repetido e de superar os limites das ideias que o trouxeram até aqui.
Voe mais alto! Supere a retórica da guerra. Entenda que a democracia prevaleceu por meio das instituições e da participação dos cidadãos, inclusive daqueles que discordam profundamente do senhor.
O Brasil o escolheu pelas regras da democracia, mas muitos brasileiros têm medo. Medo do que poderá acontecer com suas liberdades, com as instituições, com a convivência entre as pessoas e com o futuro de seus filhos.
Não despreze esses medos.
Não se deixe levar pelas vozes do ressentimento, da vingança ou do ódio. Não permita que ninguém dirija sua voz ou se utilize de sua autoridade para perseguir adversários.
Seja um presidente para todos. Faça pontes.
Não entregue a soberania desta grande nação a ninguém. Não se submeta às pressões de líderes de outras nações, mas também não confunda independência com isolamento. Que o Brasil seja respeitado pela grandeza de sua diplomacia, de sua ciência, de sua cultura e de seu povo.
O senhor carrega a esperança de muitos. Voe mais alto do que suas próprias promessas! Seja uma mudança maior e melhor do que aquela que imaginou durante a campanha.
Que os discursos deem lugar aos atos. Que a necessidade de vencer adversários dê lugar à responsabilidade de governar. Que a história registre não apenas a vitória de um candidato, mas o amadurecimento de um homem diante de sua missão.
Excelentíssimo Senhor Presidente,
Seja este seu primeiro ou seu quarto mandato, há algo que o senhor não pode esquecer:
O Brasil não lhe pertence.
O Brasil não pertence ao seu partido, aos seus apoiadores, aos seus aliados, aos seus financiadores ou àqueles que ocupam os espaços de poder.
O Brasil pertence aos brasileiros.
E o senhor carrega, a partir de agora, a responsabilidade por uma história muito maior do que a sua.
A história de uma terra indígena, habitada por povos que aqui viviam muito antes da formação de nosso Estado e que continuam lutando pelo reconhecimento de sua dignidade, de suas culturas e de seus direitos.
Uma terra que recebeu imigrantes europeus, asiáticos, latino-americanos e de tantas outras partes do mundo.
Uma terra construída também pelo trabalho, pelo sofrimento, pela resistência e pela imensa contribuição de milhões de africanos escravizados e de seus descendentes.
Uma terra de diferenças, de encontros e desencontros, de injustiças que ainda precisamos superar e de possibilidades que ainda não conseguimos realizar.
O senhor presidirá um país no qual milhões de pessoas pensam, acreditam, vivem e sonham de maneiras diferentes.
Não tente torná-las iguais.
Não confunda unidade nacional com uniformidade de pensamento. Não confunda discordância com deslealdade. Não transforme adversários em inimigos.
Um país verdadeiramente livre não é aquele em que todos concordam com seu presidente, mas aquele em que ninguém precisa concordar com ele para ser respeitado.
Cuide da educação, da ciência, da saúde e da segurança de nosso povo. Respeite os professores, os pesquisadores, os profissionais de saúde, os trabalhadores, os empreendedores e todos aqueles que, com seu esforço, ajudam a sustentar esta nação.
Cuide dos recursos públicos. Cada real arrecadado representa uma parte do trabalho de alguém. Não permita que a corrupção, os privilégios e o desperdício roubem do povo as oportunidades que lhe pertencem.
Reconheça seus erros.
Escute aqueles que discordam do senhor.
Não permita que o poder lhe roube a capacidade de duvidar de si mesmo.
Muitos apostam que seu governo realizará os piores medos de seus opositores. Outros esperam que realize os maiores sonhos de seus apoiadores.
Mas o futuro ainda não está escrito.
Voe mais alto, Senhor Presidente!
Voe mais alto!
Lembre-se de que esta é a terra de Santos Dumont, que ousou acreditar que o ser humano poderia voar quando tantos ainda consideravam isso impossível.
É a terra de Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, que ajudaram a transformar o conhecimento científico em caminhos para salvar vidas.
É a terra de Machado de Assis e Clarice Lispector, que revelaram ao mundo a profundidade da alma humana.
É a terra de Nise da Silveira, que nos ensinou a reconhecer a humanidade onde tantos enxergavam apenas a doença.
É a terra de Carolina Maria de Jesus, que, em meio à pobreza, encontrou na palavra a força para revelar uma realidade que muitos preferiam não ver.
É a terra de Heitor Villa-Lobos, que levou ao mundo a riqueza de nossa música, e de tantos artistas, cientistas, educadores, inventores e pensadores que demonstraram que a inteligência brasileira não conhece fronteiras.
Senhor Presidente,
Talvez um dia lhe tenham ensinado uma das mentiras mais perversas que circulam pelos corredores do poder: a de que o povo não é inteligente o bastante para compreender os problemas de seu próprio país.
A de que é mais fácil despertar seus medos do que desafiar sua inteligência. Mais fácil conquistar sua obediência do que despertar sua consciência.
Não acredite nessa mentira. Não confunda falta de oportunidade com falta de capacidade.
Eleve a régua, Senhor Presidente. Não governe para o mínimo que imagina que o povo possa compreender. Governe para o máximo que cada brasileiro pode vir a ser.
Ofereça uma educação que ensine a pensar, oportunidades que despertem talentos e condições para que cada pessoa construa o próprio futuro.
Não basta aliviar a pobreza. É preciso abrir caminhos para que as pessoas possam ir além dela.
Porque o brasileiro não sonha apenas com carne no prato. Sonha em descobrir a cura de uma doença. Em ser cientista, médico, artista, professor. Em vestir a camisa da Seleção, em explorar o espaço, em transformar o mundo.
Uma criança brasileira não olha para o céu sonhando apenas com o pão de amanhã.
Ela sonha em alcançar as estrelas!
E não há razão alguma para que seus sonhos sejam menores do que os de uma criança nascida em qualquer outro lugar do mundo.
Voe mais alto, Senhor Presidente.
Não se contente em fazer do Brasil um país que apenas supera as próprias dificuldades. Faça dele um país capaz de ajudar o mundo a superar as suas.
Não aceite que nossas fronteiras se tornem os limites de nossas possibilidades.
O Brasil tem muito a aprender com outras nações. Mas também tem muito a ensinar.
Somos uma terra de encontros entre povos, culturas, histórias e tradições. Uma nação marcada por feridas profundas, mas também pela criatividade, pela música, pela alegria e pela esperança.
Podemos mostrar ao mundo que pessoas diferentes não precisam apenas se tolerar. Podem se reconhecer, se amar e construir juntas grandes coisas.
Senhor Presidente,
O lema de nossa bandeira nasceu de um ideal maior: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim.
Mas, em nossa bandeira, ficaram apenas a ordem e o progresso.
O amor ficou de fora.
Não deixe que ele fique de fora também de nossa história.
Não tenha vergonha de falar de amor. Do amor que nos faz reconhecer a dignidade de quem pensa diferente, que nos leva a cuidar de quem sofre, que nos inspira a criar, a descobrir e a oferecer ao mundo o melhor de nós mesmos.
O amor não é uma fraqueza de nossa nação. É uma de suas maiores forças.
Que o Brasil seja reconhecido não apenas por suas riquezas naturais ou pela vastidão de seu território, mas por aquilo que seu povo é capaz de oferecer à humanidade: a ciência que salva vidas, a arte que aproxima os povos, a coragem de construir a paz onde tantos insistem em fazer a guerra.
Que nossa grandeza não seja medida apenas pelo que conquistamos para nós mesmos, mas pelo que somos capazes de oferecer ao mundo.
Senhor Presidente,
O senhor não recebeu um cheque em branco.
Não recebeu um prêmio.
Recebeu uma missão.
E talvez a maior delas seja compreender que o futuro do Brasil não depende de um homem extraordinário, mas de milhões de brasileiros que precisam ter a oportunidade de realizar aquilo de que são capazes.
O Brasil é maior do que qualquer presidente.
Por isso, Senhor Presidente, voe mais alto.
Mas, acima de tudo, ajude o Brasil a voar!
Élison Santos
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Élison Silva Santos, Ph.D.
Psicólogo e Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP)
Diretor do IPSapiens – Busca Sentido


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