Entre a consciência e o fanatismo: o que a polarização política está fazendo com o Brasil?
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, quatro psicólogos se reúnem para refletir sobre democracia, desumanização, liberdade de consciência e os desafios de construir uma comunidade em meio às diferenças.
O que acontece com uma sociedade quando discordar deixa de ser uma expressão de liberdade e passa a ser motivo para hostilidade?
O Brasil chega a mais uma eleição presidencial dividido. As discussões políticas atravessam famílias, amizades, ambientes profissionais, universidades e redes sociais. Pessoas que antes conseguiam conversar passaram a evitar determinados assuntos. Em outros casos, a divergência transformou-se em rompimento, ressentimento ou desprezo.
Talvez o aspecto mais preocupante não seja a intensidade das diferenças políticas, mas a maneira como temos aprendido a lidar com elas.
A democracia pressupõe a existência de perspectivas distintas. Não somos iguais, não temos as mesmas experiências, não compartilhamos necessariamente as mesmas prioridades e tampouco precisamos chegar às mesmas conclusões. A diversidade de pensamento não é um defeito da democracia: é uma de suas condições fundamentais.
Entretanto, quando a identidade política se torna mais importante do que a dignidade humana, algo começa a se perder. O adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser percebido como uma ameaça, um inimigo ou uma pessoa moralmente inferior.
Nesse momento, o problema já não é apenas político. É também psicológico, social e existencial.

Um país que sempre conviveu com diferenças
A história recente do Brasil demonstra que as disputas políticas não são uma novidade.
Desde o retorno das eleições presidenciais diretas, em 1989, o país passou por governos de diferentes orientações, crises econômicas, transformações sociais, denúncias de corrupção, processos de impeachment e sucessivas disputas eleitorais.
Em 1989, Fernando Collor venceu Luiz Inácio Lula da Silva com 53,03% dos votos válidos, contra 46,97%. Em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com 51,64%, diante dos 48,36% de Aécio Neves. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,90% a 49,10%, na disputa presidencial mais apertada desde a redemocratização.
Esses resultados revelam algo importante: o Brasil nunca foi uma sociedade politicamente homogênea.
As divergências existiam antes das redes sociais, antes das disputas atuais e antes dos líderes que hoje concentram tantas paixões e rejeições.
O que precisamos compreender é por que essas diferenças, que poderiam enriquecer o debate democrático, passaram a produzir tamanha dificuldade de convivência.
A proximidade dos resultados eleitorais não explica, por si só, a polarização afetiva. Mas nos lembra que milhões de brasileiros continuarão pensando de maneira diferente depois da eleição.
A eleição termina. A convivência precisa continuar.
O que estamos realmente discutindo quando discutimos política?
Nas últimas semanas, tenho refletido sobre questões que considero fundamentais para compreender o momento brasileiro.
O país possui riquezas naturais, capacidade produtiva, instituições consolidadas e uma população extraordinariamente diversa. Ao mesmo tempo, enfrenta problemas persistentes de desigualdade, educação, saúde, segurança, produtividade econômica e qualidade dos serviços públicos.
Governos de diferentes orientações contribuíram, em maior ou menor medida, para avanços importantes e também enfrentaram limitações, contradições e fracassos.
Políticas de inclusão social, ampliação do acesso à educação e proteção de populações vulneráveis merecem ser examinadas por seus resultados. Da mesma maneira, o equilíbrio das contas públicas, a liberdade econômica, o combate à corrupção, a segurança jurídica e a eficiência do Estado são preocupações legítimas.
Essas questões não deveriam pertencer exclusivamente a um campo político.
Por que precisamos escolher entre justiça social e responsabilidade fiscal? Entre liberdade e responsabilidade? Entre crescimento econômico e dignidade humana?
Talvez uma parte importante de nossa dificuldade esteja justamente na tendência de transformar problemas complexos em escolhas simplificadas, como se reconhecer o valor de uma proposta significasse aceitar integralmente o grupo político que a defende.
A psicologia pode nos ajudar a compreender esse fenômeno.
Quando a política se torna identidade
Nossas convicções políticas não se formam apenas pela análise racional de propostas e resultados.
Elas também são influenciadas por nossas experiências, vínculos afetivos, valores, medos, expectativas, necessidades de pertencimento e interpretações sobre o mundo.
A identificação com um grupo pode oferecer segurança e reconhecimento. Entretanto, também pode favorecer a divisão entre aqueles que percebemos como semelhantes a nós e aqueles que classificamos como pertencentes ao grupo oposto.
Passamos, então, a interpretar informações de maneiras diferentes conforme sua origem. Podemos ser rigorosos diante dos erros de nossos adversários e excessivamente tolerantes com os erros daqueles com quem nos identificamos.
A pergunta deixa de ser “isso é verdadeiro?” e passa a ser, muitas vezes, “isso favorece o meu lado?”.
Nesse ambiente, notícias falsas, informações descontextualizadas, julgamentos morais precipitados e discursos de hostilidade encontram condições favoráveis para circular.
Não se trata de afirmar que todas as posições políticas são equivalentes ou que todas as afirmações merecem o mesmo crédito. Há fatos verificáveis, responsabilidades concretas e diferenças reais entre propostas.
O desafio é preservar a capacidade de examinar criticamente até mesmo aquilo que confirma nossas próprias crenças.
Ser livre para pensar exige também coragem para questionar o que pensamos.
Viktor Frankl: comunidade, massa e a perda da singularidade
Uma das perspectivas que desejo trazer para nossa conversa vem da psicologia existencial de Viktor Frankl.
Em sua reflexão sobre a existência humana, Frankl distingue a comunidade, na qual a singularidade de cada pessoa possui valor, da massa, em que essa singularidade tende a ser dissolvida.
Essa distinção oferece uma chave importante para pensarmos a polarização política.
Uma comunidade não exige que todos sejam iguais. Pelo contrário, sua riqueza depende da presença de pessoas únicas, capazes de contribuir com suas diferenças, responsabilidades e perspectivas.
Na massa, a individualidade perde espaço diante da conformidade.
Frankl também descreveu duas tendências relacionadas à perda da orientação existencial: o conformismo, quando a pessoa passa a fazer simplesmente o que os outros fazem, e o totalitarismo, quando passa a fazer o que os outros querem que ela faça.
Essas ideias não devem ser utilizadas como rótulos automáticos para classificar grupos políticos. Seu valor está em nos convidar a examinar nossa própria liberdade.
Até que ponto nossas opiniões são realmente nossas?
Quantas vezes repetimos argumentos sem examiná-los?
Quantas vezes deixamos de manifestar uma dúvida legítima por receio de sermos rejeitados pelo grupo ao qual pertencemos?
É possível que a polarização favoreça a formação de grupos tão fechados em suas próprias certezas que já não consigam reconhecer a humanidade daqueles que estão fora deles.
Nesse caso, não estaríamos apenas diante de duas posições políticas em conflito, mas de uma dificuldade mais profunda de construir comunidade.
Fanatismo, fatalismo e a responsabilidade pela própria consciência
Outra contribuição da perspectiva frankliana está na reflexão sobre as atitudes humanas diante das circunstâncias.
O fanatismo pode reduzir a abertura ao questionamento. O fatalismo pode alimentar a crença de que nada depende de nós. E a atitude provisória diante da existência pode favorecer a suspensão de responsabilidades, como se nossas escolhas não tivessem consequências duradouras.
Na vida política, essas tendências merecem atenção.
Quando acreditamos que apenas um líder poderá salvar o país, corremos o risco de transferir a ele responsabilidades que também nos pertencem.
Quando acreditamos que todos os problemas são culpa de um único grupo, deixamos de perceber a complexidade histórica, institucional e social da realidade.
E quando concluímos que nada pode ser feito, podemos abandonar justamente a participação cidadã necessária para transformar essa realidade.
A liberdade de consciência exige algo mais difícil do que escolher um lado: exige responder pessoalmente pelas próprias decisões.
Nesse sentido, dois conceitos da psicologia existencial merecem destaque.
O autodistanciamento é a capacidade de tomar certa distância de nossos pensamentos, emoções e impulsos para examiná-los criticamente, em vez de simplesmente reagir a eles.
A autotranscendência nos convida a dirigir nossa atenção para além de nossos interesses imediatos, reconhecendo valores, pessoas e responsabilidades que ultrapassam nosso próprio grupo.
Talvez precisemos exercitar ambos no debate político: distanciar-nos de nossas reações automáticas e aproximar-nos das responsabilidades que compartilhamos como sociedade.
A dignidade humana não pode depender do voto
Um dos riscos mais graves da polarização é a desumanização.
Ela aparece quando deixamos de reconhecer no outro uma pessoa complexa, dotada de história, valores, fragilidades, liberdade e dignidade, reduzindo-a a uma identidade política.
É possível discordar profundamente de uma proposta, denunciar uma injustiça, criticar um governo ou responsabilizar alguém por seus atos sem negar sua condição humana.
Respeitar a dignidade de uma pessoa não significa concordar com suas ideias.
Da mesma maneira, defender o diálogo não significa relativizar a violência, a corrupção, as ameaças às instituições ou as violações de direitos.
A questão é como enfrentar problemas reais sem reproduzir a lógica da desumanização.
Afinal, se desejamos uma sociedade democrática, precisamos reconhecer que ela continuará sendo habitada por pessoas que não pensam como nós.
Uma conversa entre psicólogos, não um debate entre candidatos
Foi a partir dessas inquietações que surgiu a ideia de reunir colegas psicólogos para uma conversa pública.
No dia 19 de outubro de 2026, segunda-feira, às 19h, realizaremos a live:
ENTRE A CONSCIÊNCIA E O FANATISMO
A psicologia da polarização política, da desumanização e da crise do diálogo no Brasil.
Participarão desta conversa os psicólogos Sam Cyrous, Milena Castro e Luciano Castro, comigo na mediação.
Nossa proposta não é indicar em quem votar, defender um partido ou apresentar respostas prontas para os desafios nacionais.
Queremos criar um espaço de reflexão crítica, no qual seja possível reconhecer a complexidade dos problemas brasileiros e examinar os processos psicológicos que influenciam nossas escolhas políticas.
Entre as perguntas que pretendemos explorar estão:
Por que a política passou a ocupar um espaço tão intenso em nossas relações pessoais?
Quando a identificação com um grupo se transforma em fanatismo?
Qual é a diferença entre uma comunidade de pessoas livres e uma massa orientada pela conformidade?
Como as distorções cognitivas e a desinformação influenciam nossos julgamentos?
Por que sentimos tanta necessidade de classificar as pessoas como boas ou más a partir de suas escolhas políticas?
Como o autodistanciamento e a autotranscendência podem contribuir para um diálogo mais responsável?
O que significa votar com consciência em uma sociedade profundamente dividida?
Não esperamos concordar em tudo. Aliás, isso seria contraditório com o próprio espírito da conversa.
Nosso objetivo é demonstrar que a discordância pode existir sem que a dignidade, o respeito e a disposição para compreender sejam abandonados.
Voe mais alto, Senhor Presidente!
Essa reflexão também está relacionada a uma carta aberta que escrevi ao futuro Presidente da República, intitulada “Voe mais alto, Senhor Presidente!”.
A carta nasceu de uma preocupação que ultrapassa a eleição: a necessidade de que nossos governantes reconheçam a grandeza do país e de que nós, cidadãos, não entreguemos nossa liberdade e nossa responsabilidade àqueles que elegemos.
Precisamos de lideranças comprometidas com o bem comum, mas também de cidadãos que não esperem passivamente que alguém resolva todos os seus problemas.
Um país não se constrói apenas a partir do Palácio do Planalto.
Ele se constrói nas escolas, nas famílias, nas universidades, nas empresas, nas instituições, nas relações cotidianas e nas decisões de cada pessoa.
A carta é um convite à liderança responsável, mas também à cidadania consciente.
Depois da eleição, que Brasil queremos continuar construindo?
No próximo dia 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para decidir quem ocupará a Presidência da República.
O resultado será importante. As políticas públicas, as escolhas econômicas, as prioridades sociais e a condução das instituições terão consequências reais para milhões de pessoas.
Mas há algo que nenhuma eleição poderá resolver sozinha: nossa maneira de conviver.
Depois do segundo turno, continuaremos compartilhando o mesmo país, suas riquezas, seus problemas, suas possibilidades e suas responsabilidades.
Continuaremos encontrando pessoas que votaram de maneira diferente.
E continuaremos precisando construir respostas para problemas que nenhum grupo político conseguirá enfrentar isoladamente.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem vencerá a eleição, mas que tipo de cidadãos desejamos ser depois dela.
Queremos uma sociedade em que as pessoas tenham medo de expressar suas opiniões? Em que a divergência seja interpretada como ameaça? Em que a lealdade a um grupo seja mais importante do que o compromisso com a verdade?
Ou queremos uma comunidade em que pessoas livres possam discordar, dialogar, reconhecer seus erros e assumir responsabilidades pelo futuro comum?
Convido você a participar dessa conversa.
Não para abandonar suas convicções, mas para examiná-las com liberdade. Não para concordar com todos, mas para reconhecer a dignidade daqueles que pensam de maneira diferente.
Porque uma democracia não precisa de cidadãos que pensem da mesma maneira. Precisa de cidadãos capazes de pensar por si mesmos e de conviver responsavelmente com os outros.
Participe da live
Entre a consciência e o fanatismo
A psicologia da polarização política, da desumanização e da crise do diálogo no Brasil
Data: segunda-feira, 19 de outubro de 2026Horário: 19h (Brasília)Local: YouTube — IPSapiens Busca Sentido
Participantes: Sam Cyrous, Milena Castro, Luciano Castro e Élison Silva Santos.
Assista e participe: https://youtube.com/live/nYBvp78H-eQ
Leia também: Voe mais alto, Senhor Presidente! — Carta aberta ao futuro Presidente da República https://c.org/RfrWFKvPY9
Élison Silva Santos, Ph.D.
Psicólogo, Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP)
Diretor do IPSapiens – Busca Sentido
Presidente-Eleito - International Council of Psychologists


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