Independentemente do resultado, hoje não é um dia feliz para o Brasil
Uma reflexão sobre idolatria política, polarização e a responsabilidade que deixamos de assumir.
Hoje, um dos candidatos será eleito presidente do Brasil. Mas sua vitória não significará necessariamente que tenha uma história exemplar, que possua qualidades admiráveis ou que o povo o ame. Significará também que, ao longo de mais de 20 anos, não fomos capazes de formar novas lideranças políticas. Escolhemos idolatrar pessoas e, de lados opostos, investimos na construção e na manutenção de histórias baseadas no arquétipo do herói.
A idolatria política cegou o país, e a corrupção passou a ser tolerada como parte do status quo.
É mais fácil, a cada quatro anos, ir às ruas gritar os mesmos nomes. O triste é saber que o Brasil tem tantas pessoas muito mais capazes, dignas, honestas e admiráveis, cujos planos para o país poderíamos estar discutindo, não carregados de medo, raiva e até ódio, mas imbuídos de alegria, esperança e respeito.
Quando se exalta uma pessoa, os demais tendem a perder de vista suas próprias responsabilidades. Na psicologia dos grupos, quando alguns não assumem seu papel, outros ocupam esses espaços, e cria-se dependência. Ela não se estabelece apenas porque alguém deseja dominar, mas também porque outros deixam de exercer sua autonomia: há uma reciprocidade entre quem concentra o poder e quem renuncia, pouco a pouco, à própria responsabilidade. O líder passa a se acreditar indispensável; o grupo, a crer que não pode existir sem ele. A admiração dá lugar à submissão, a lealdade substitui o pensamento crítico, e a identidade coletiva passa a depender da permanência de uma única pessoa.
Esses processos não são inevitáveis, nem exclusivos da política. Fenômenos como conformidade, identificação com a liderança e difusão de responsabilidade podem levar indivíduos a aceitar decisões que, isoladamente, talvez jamais aceitassem. E quanto mais a identidade de um grupo se confunde com a de seu líder, mais difícil se torna reconhecer seus erros sem sentir a própria identidade ameaçada. O empobrecimento é duplo: o grupo perde a capacidade de renovação, e o líder, a oportunidade de reconhecer seus próprios limites. A crítica passa a ser lida como traição, a discordância como ameaça, e a alternância de poder, que deveria ser uma expressão saudável da democracia, torna-se motivo de medo.
Talvez uma das maiores tragédias políticas de nosso tempo seja justamente essa: transformamos pessoas em símbolos tão absolutos que deixamos de enxergá-las como seres humanos, sujeitos a erros, limitações, contradições e responsabilidades.
Enquanto brigávamos entre nós para apontar os piores defeitos, os piores crimes, as maiores mazelas, mostramos às crianças, durante mais uma campanha, o quanto fomos irresponsáveis, o quanto fomos imaturos, o quanto nos deixamos manipular.
E talvez essa seja uma das consequências mais graves de tudo o que estamos vivendo. Não se trata apenas de quem ocupará a Presidência pelos próximos quatro anos. Trata-se daquilo que estamos ensinando às novas gerações sobre convivência, dignidade, respeito e responsabilidade.
Que exemplo oferecemos às crianças quando adultos instruídos, profissionais respeitados e pessoas que dedicaram suas vidas à educação, à ciência e ao cuidado com o próximo passam a justificar mentiras, agressões e humilhações porque acreditam que sua causa é moralmente superior?
Quando ensinamos, ainda que indiretamente, que a dignidade de alguém depende de suas escolhas políticas, enfraquecemos justamente o fundamento ético que deveria sustentar nossa vida em sociedade.
Alguns terão a ilusão de que venceram hoje à noite, mas, independentemente do resultado, se formos honestos, veremos que hoje não é um dia feliz para o Brasil.
Durante os últimos meses, vi grandes jornalistas, grandes psicólogos, grandes pesquisadores, grandes pessoas compartilhando fake news, defendendo comportamentos que jamais defenderiam, aplaudindo mentiras, tudo porque aceitaram a ideia de que ter duas opções de candidatos à Presidência significaria deixar de lado seu lugar de crítico, de observador, de promotor da paz, da consciência, do encontro, do sentido e também do amor.
O que mais me preocupa não é a existência de posições políticas diferentes. A divergência é legítima, necessária e constitutiva de uma sociedade democrática. O que me preocupa é o momento em que a convicção se transforma em autorização para abandonar princípios.
A mentira não se torna verdade porque favorece uma causa que consideramos justa. A violência não se torna legítima porque é praticada contra alguém de quem discordamos. A desumanização não deixa de ser desumanização porque acreditamos estar do lado certo da história.
Quando a defesa de uma ideia exige que abandonemos nossos próprios valores, talvez seja o momento de questionar não apenas essa ideia, mas também a relação que estabelecemos com ela.
Falo aqui também como psicólogo, e me dirijo especialmente aos meus colegas de profissão. Minha crítica, é claro, não é generalizada: sei que muitos de nós buscamos justamente promover a consciência, a responsabilidade, o encontro e o respeito à dignidade humana. Sei também que somos propensos a ser tomados por paixões que se alimentam da dor, do medo e do desespero.
Nossa formação profissional não nos torna imunes ao fanatismo, à polarização ou às distorções do julgamento. O conhecimento psicológico, por si só, não garante maturidade ética. Ao contrário, quanto maior nossa capacidade de compreender o comportamento humano, maior deveria ser nossa responsabilidade ao participar da vida pública.
Não podemos exigir escuta, empatia e respeito em nossos consultórios e, ao mesmo tempo, abandonar esses princípios quando encontramos alguém que pensa politicamente diferente de nós.
Viktor Frankl estabeleceu uma distinção fundamental entre comunidade e massa. Na comunidade, a singularidade de cada pessoa constitui uma riqueza; na massa, a individualidade tende a se dissolver. A comunidade se fortalece pela contribuição de pessoas únicas, livres e responsáveis. A massa, ao contrário, favorece o conformismo, a uniformidade e a renúncia ao julgamento pessoal.
Essa distinção nos ajuda a compreender um dos paradoxos da polarização contemporânea. Em nome da defesa da sociedade, podemos acabar enfraquecendo justamente aquilo que torna possível uma sociedade verdadeiramente humana: o encontro entre pessoas diferentes.
Quando dois grupos passam a exigir adesão incondicional, não temos necessariamente duas comunidades em diálogo, mas duas massas em confronto. Cada uma convencida de sua superioridade moral, cada uma incapaz de reconhecer os próprios erros, cada uma atribuindo à outra a responsabilidade por todos os males.
Frankl também nos alertou para dois riscos profundamente relacionados à perda da autonomia: o conformismo, quando fazemos simplesmente aquilo que os outros fazem, e o totalitarismo, quando passamos a fazer aquilo que os outros querem que façamos.
A liberdade, nessa perspectiva, não consiste apenas na possibilidade de escolher entre alternativas que nos são apresentadas. Ela exige a capacidade de assumir uma posição pessoal diante delas, orientada pela consciência e pela responsabilidade.
Mas insisto: sempre haverá uma terceira opção.
Não me refiro necessariamente a um terceiro candidato ou a um partido diferente. Refiro-me à possibilidade de não entregar nossa consciência a nenhum deles. À liberdade de reconhecer o que há de bom em uma proposta sem precisar justificar o que há de errado em quem a apresenta. À coragem de discordar daqueles com quem normalmente concordamos e de reconhecer a dignidade daqueles de quem discordamos.
A terceira opção é, antes de tudo, uma atitude.
É a possibilidade de continuar sendo uma pessoa livre, crítica e responsável, mesmo quando tudo ao nosso redor parece exigir que escolhamos um lado e abandonemos qualquer nuance.
Que, nas próximas eleições, nos lembremos de que o maior poder está acima dos partidos, das ideologias e, principalmente, dos candidatos. Está na consciência de cada cidadão, na capacidade de participar da vida pública sem abdicar da própria responsabilidade, na disposição de construir uma sociedade que não dependa de heróis para continuar existindo.
Uma democracia amadurece quando seus cidadãos deixam de procurar alguém que assuma por eles a responsabilidade pelo futuro. Quando compreendem que nenhum governante, por mais competente ou admirável que seja, pode substituir o compromisso pessoal de cada um com a verdade, a justiça e a dignidade humana.
Nenhuma pessoa deve ser idolatrada. Uma democracia não se faz de mitos nem de salvadores.
Se Frankl nos ensinou algo que se aplica perfeitamente à política, é que a responsabilidade é o principal caminho para uma vida cheia de sentido.
Talvez seja justamente disso que mais precisamos neste momento: menos pessoas dispostas a salvar o Brasil e mais brasileiros dispostos a assumir sua responsabilidade por ele.



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